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ContosCultura

Memórias fragmentadas, parte II

Porquê?

Em toda a sua vida Matias perguntou porquê. Tenra idade assombrada pela mais vil teatralidade da morte. A sua mãe, a pessoa mais bela e a mais amada, aquele ser fonte de maternidade. Viu-a tombada na cama de uma velha casa. Ainda se recorda da intensidade do vermelho do sangue a tingir a sua memória. Os olhos bem abertos por onde saiu a alma. Um pequeno e negro buraco junto ao olho direito. A imagem que era para ele a sombra do diabo.

Ainda jovem ignorou as vozes que o olhavam pelo canto do olho. “Coitado do rapaz, tão novo.” Desdém foi algo que aprendeu nesses dias. Chorou traição por um mundo que lhe roubou a mãe e durante meses perguntou ao seu pai quem matara a pessoa que mais amava. Um rapaz de raiva contida transformou-se num ser de tristeza quando percebeu que fora a sua própria mãe a terminar a sua vida. Afinal, quem lhe roubou a mãe, foi a sua própria mãe.

Sem o porquê desapareceu a luz dos dias do jovem depois adulto Matias. Cada lágrima sempre fora uma interrogação sem resposta. Em cada aniversário retirava de um canto escuro uma caixa martirizada pelos anos. Lá dentro um conjunto de velhas molduras com pessoas de tempos distantes. Sempre as deixava respirar naquele dia, ano após ano, tentando dar-lhes uma vida como sempre o desejou à sua mãe. Nunca chegou a saber quem eram as pessoas das fotos, mas isso não lhe incomodava. Eram figuras também elas sem respostas. Que poderiam elas dizer?

Colocava as molduras na parede tentando simular a velha casa. Depois observa-as e esperava um estalido metálico, um sopro de morte que o viesse buscar e terminasse toda aquela angústia que o caracterizava como pessoa. Queria estar com a mãe. Cada moldura era um fragmento de uma memória perdida no tempo. Era um episódio de uma história nunca contada. Um sopro de vento do esquecido que ali ousou entrar na realidade como uma partícula que do nada ganha matéria. O vento foi matéria que derrubou uma moldura. Fragmentos de uma memória espalharam-se no chão pondo a nu o papel centenário. Segurou a fotografia e virou-a de costas. Por trás, um nome.

A descoberta foi uma centelha de lume numa noite fria. Acordou-o de uma letargia. Matias pegou em todas as molduras e forçou-as uma a uma. Descobriu os nomes, leu-os, repetiu-os quando estes se repetiam. Alguns conhecia. O avô, a avô, um tio, outras julgou serem seus ancestrais, familiares esquecidos, outros desconhecia simplesmente. Cinco fotos ficaram de lado. Eram de uma mulher jovem, bela, de cabelo negro como liso, olhar sorridente e apaziguador. Nas costas, nada. Nenhum nome escrito, apenas o silêncio esculpido no vazio. E o incómodo.

Novas perguntas sem resposta. Mas agora vivia um entusiasmo e uma ideia fixa. Descobrir quem era aquela mulher da foto. Sabia não ser a sua mãe, embora pudessem ter a mesma idade conforme se recordava dos seus tenros anos. Parecia-lhe incrível nunca antes ver nenhuma dessas fotos sem a sua moldura. Guardara-as assim porque assim eram quando viveu naquele dia fatídico, eram fatídicas e para sempre seriam se uma não tivesse caído. Os pequenos pedaços de vidro espalhados no chão eram os momentos da sua vida que se estilhaçou depois de anos de hibernação afectiva.

Fosse quem fosse, aquela mulher era a criança de uma esperança que adoptara por instinto no momento em que soube que tinha de a descobrir. Era especial. Tão especial. Não só guardava respostas como guardava vida. Matias agora sentia-se vivo.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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