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23 de Abril

Um dia é somente uma sequência num mês e num ano. Repete-se. No entanto, existem dias que se tornam relevantes por diversos motivos e surgem as chamadas efemérides. Estamos no mês de Abril, um mês particularmente significativo para os portugueses, pois comemora-se mais uma aniversário importante: a queda do anterior regime político e a passagem para a democracia. São 42 anos dum novo sistema político, plenos de altos e baixos, de avanços e de recuos, mas, sobretudo, de alterações de fundo.

O 25 de Abril suscita também o seu lado anedótico, o que é peculiar aos portugueses, fazer uma piada com qualquer acontecimento. Perguntam se os espanhóis também têm 25 de Abril, ao qual as pessoas respondem que não. Como é natural e óbvio não se passa do dia 24 para o dia 26, logo, também existe no calendário espanhol. E mundial, está fácil de ver.

Contudo, não é deste dia que se vai tratar aqui, mas sim do dia 23. É o dia Internacional do Livro e do Direito de Autor, o dia de S. Jorge, o combatente dos dragões, no calendário religioso e mitológico. É, de facto, um dia de grande relevo e poucos saberão que em 1936 é inaugurado o campo do Tarrafal, em Cabo Verde, que em 1984 é descoberto o vírus da SIDA, nos Estados Unidos da América e ainda que em 2005 é colocado o primeiro vídeo no Youtube, que se tornou viral até aos nossos dias. Todos os acontecimentos têm uma data, um início, mas como fazem parte das vidas comuns ficam esquecidas.

Neste mesmo dia há ainda a assinalar nascimentos importantes. Em 1564, William Shakespeare, o famoso dramaturgo que nos legou a história do Romeu e Julieta, um amor desencontrado e rebelde, em 1881 Sacadura Cabral, o nosso aviador mais importante e maltratado, pois o cabecilha da travessia foi ele, mas o seu posto era inferior ao de Gago Coutinho, em 1928, Shirley Temple, a menina prodígio do cinema que depois se tornou senadora e em 1937, Roy Orbison, o compositor desconhecido do público geral e venerado pelos músicos consagrados.

No entanto, um outro século é ainda mais importante para nós, portugueses, o século XII. Em 1185 nasce D. Afonso II, filho de D. Sancho I, rei duma importância extraordinária por um motivo único: os primeiros documentos escritos em língua portuguesa são do seu reinado. Uns pelas suas ordens e outro pela originalidade. O seu reinado foi breve, de 1211 a 1223, 12 anos, mas foi um tempo de alterações profundas. Iniciou o seu reinado com 25 anos e foi casado com Urraca, filha de Afonso IX de Castela, mantendo o estreitamento das duas casas reais. Era um homem gordo, talvez devido à falta de saúde, o que o levou a redigir um testamento, o tal documento em português.

É a época das cruzadas, onde os reis da cristandade ocidental se unem em prol dum objectivo comum. Contudo, foram tempos de contendas particularmente difíceis, porque foram na sua família, com as suas irmãs, Teresa e Sancha, a quem D. Sancho tinha legado as vilas de Montemor-O-Velho, Esgueira e Alenquer e D. Afonso se recusou a cumprir. Torna-se um rei agravado pelo Papa e pelo rei de Leão, em várias ocasiões da sua vida. O cerco de Alcácer é conseguido com a ajuda dos cruzados e em nome da guerra santa. É também no seu reinado que as casas dominicanas e franciscanas se fundam no reino, em Coimbra, Lisboa e Guimarães. O seu nome está ligado aos cercos de Serpa e de Moura, onde a sua figura acabou por ser ridicularizada, devido à sua obesidade. O Papa Honório III, em 1218, deixa palavras de louvor pelas suas obras de piedade e de valor na guerra.

O balanço do seu reinado foi muito positivo: acrescentou tesouros, mandou povoar lugares, concedeu forais, administrou a justiça, criou disciplina nos oficiais da sua casa com leis rigorosas através das posturas de 1222 e foi um rei organizado e económico, sabendo repartir a riqueza e acumular as poupanças. Foi um monarca justo e observador, refreando os abusos daqueles que se afoitavam. Acabou por falecer em 25 de Maio de 1223, tendo, como sua última vontade, ser sepultado em Alcobaça, contrariando a desejo de seu avó, que seria em Santa Cruz de Coimbra.

O testamento de Afonso II originou 13 cópias em duas edições distintas. Uma delas foi enviada para o arcebispo de Braga, conhecida por edição L e posteriormente remetida para Lisboa, e a outra terá sido levada para Toledo, o centro cristão da época, com a denominação de T. Este ainda mostra o respectivo selo com o pendente de cera e as tiras do pergaminho. Uma breve análise permite verificar que foram escritos por mãos diferentes e sem identificação dos copistas. As grafias são diferentes bem como as formas linguísticas, o que prova que ainda não havia conformidade devido às variantes produzidas. É um documento onde são assinaladas as suas últimas vontades, sendo curioso realçar que se refere primeiro a sua mulher, a rainha D. Urraca e só posteriormente a seus filhos. É elaborado o rol das doações pecuniárias, enumeradas detalhadamente bem como o seu desejo de ser sepultado em Alcobaça.

A Notícia de Torto é um documento com características únicas, pois parece ser um rascunho de notário, o que lhe atribui um valor excepcional. É um pergaminho de forma irregular, com buracos e imperfeições, notas rápidas, escrito de ambos os lados com letra irregular, denotando algum desleixo, havendo palavras raspadas e outras acrescentadas entre linhas. É uma queixa formulada por Lourenço Fernandes da Cunha contra os filhos de outro nobre, seu parente, Gonçalo Ramires. A contenda relaciona-se com uma herança e a súmula dos tortos, ou seja, as ofensas e as delapidações são relatadas detalhadamente.

Assim sendo, a memória deste rei, que teve um papel de relevo na nossa língua, deve ser respeitava e preservada. Foi o embrião duma nova língua que foi crescendo e se tornou independente sendo, neste momento, falada por milhões de pessoas. Portanto não nos podemos esquecer de D. Afonso II, 5º filho de D. Sacho I e seu sucessor, que participou nas cruzadas religiosas e iniciou uma outra, a linguística, sem o saber.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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