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A saudade num olhar

Por detrás do olhar penetrante dela, o olhar cansado não se materializava na realidade pretendida. Aquela força interior que sempre a caracterizou, pungente e ofensiva, por estes dias do fim do ano faziam-na balançar indecisa num fio de felicidade, ameaçando, prometendo-se segurar como se tal fosse decisão dela. Por tal, os passos lentos na rua faziam-na tardar em chegar ao calor do lar.

O frio, expectável comandante do ar nesta época, parecia um soldado enraivecido que sozinho tentava defender todo um pelotão. Ninguém se mostrava preparado para tamanha violência no rosto destapado. Ainda assim toda a gente que com ela se cruzava exibia no sorriso um brilho de luz. Luz natalícia, luz branca pelo raro manto branco que assomou as ruas para deleite de crianças e graúdos.

Os dela olhos pareciam reflectir a neve. Jovens, claros, a cor do céus estampada na neve, o azul e o cinza, luminosos, a luz, a luz da saudade. Estava longe da família, organizada na sua vida independente que representava uma conquista. Mas nestes dias, a família era um aconchego insubstituível, um desejo simples, uma visão cega. As amigas tinham as suas gentes  e os seus pares, os amigos iam chegando e saindo oferecendo notas de amargura depois de doces romances.

No aproximar do Natal ela saía de casa e percorria as ruas em passo lento, tentando ser normal e observando como eram as outras pessoas, as anónimas, as normais, todas pareciam felizes. Via as crianças a fugir de pais para mergulharem brincadeiras na neve. Via adultos em correria monótona carregando sacos que não eram para si. Via jovens e casais de mãos dadas já partilhando sonhos de futuras natividades em união. Via o mundo e via a vida nos momentos em que se juntavam e regressava ao seu lar lentamente pensando que mundo era o seu e que vida era a sua. Quando se iriam encontrar?

Em véspera de natal, foi no topo das escada que subia enquanto desenrolava o cachecol e desapertava o casaco. Do bolso retirou as chaves e a música que faziam, canção de aviso para que o seu gato soubesse que estava a chegar, viu uma família sorridente no cimo das escadas. O pai chorava um reencontro surpreso, a mãe estendia os braços calorosos.

Esse Natal foi de felicidade, de ausência da saudade. Foi como todos deveriam sempre ser, um encontro entre o mundo e a vida.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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