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O fim de um ícone?

Falar de património arquitectónico é falar dos valores estéticos e históricos de uma obra a que o tempo reservou um lugar na memória que se pretende que perdure por gerações e gerações. Isso acontece, quando o edifício possui algo que o torna especial. Pode ser um marco que representa uma corrente estética, uma evolução da engenharia, uma data ou período histórico. Exemplos não faltam.

E há um exemplo que se tornou icónico pelas imagens que dele se fizeram. Fica em Los Angeles, já todos o conhecemos, já todos o vimos centenas de vezes, todos reconhecem o cenário que dele se observa. É um viaduto, o mais longo de L.A. Chama-se simplesmente Sixth Street Viaduct.

Com cerca de 1100 metros de extensão, este viaduto liga Boyles Heights a Downtown L.A. atravessando linhas férreas, uma área industrial, duas auto-estradas e o rio de Los Angeles, o L.A. River. Inaugurado em 1932, ganhou fama rápida pelo estilo Art-Deco de muitos dos seus elementos, como os pilaretes, os arcos metálicos da secção sobre o rio e pela tecnologia que incluiu uma pequena fábrica de cimento edificada no local. Em 1986, foi incluída no National Register of Historic Places, uma forma americana de lhe atribuir o título de património histórico.

Mesmo estando classificado hoje já praticamente não existe. Logo após 20 anos da sua conclusão, descobriu-se que o cimento era fraco, susceptível a uma reacção química que com o tempo levou ao aparecimento de fendas e ao consequente enfraquecimento da estrutura. Ao longo dos anos ensaiaram-se várias formas de restauro de forma a corrigir o problema. Tal permitiu que a estrutura fosse sobrevivendo, mas, nos anos mais recentes, as exigentes leis californianas relativas à segurança antissísmica decretaram a morte do monumento. A data foi escolhida e, em 25 de Janeiro, a escassas horas do encerramento definitivo, cerca de duas centenas de pessoas reuniram-se em Boyles Heights e lentamente fizeram a última travessia rumo a Downtown L.A. Sempre neste sentido, porque é aquele que permite ver em frente a mais reconhecida imagem de Los Angeles logo a seguir ao letreiro de Hollywood, a silhueta dos arranha-céus do centro.

O Sexth Street Viaduct em demolição com Downtown L.A. como cenário.
O Sexth Street Viaduct em demolição com Downtown L.A. como cenário.

Mais do que o viaduto, é esta imagem que se tornou icónica e amplamente presente na cultura popular angelena. Uma rápida pesquisa permite encontrar uma longa lista de filmes, episódios de séries e vídeos de música filmados no local. Diz o manual de Hollywood que para se filmar uma perseguição em Los Angeles, põe-se uma viatura a perseguir a outra através do Sixth Street Viaduct rumo a Downtown L.A. Nada mais simples. Muito sinteticamente, foi neste viaduto que aterrou o avião privado em S.W.A.T. (2003). Foi no L.A. River por baixo dos arcos metálicos do Sixth Street Viaduct que John Travolta iniciou uma corrida de descapotáveis em Grease (1978). Foi na zona industrial junto aos seus pilares que surgiram do nada os vários Cyborgs de Terminator a quem agradecemos ainda haver o mundo. Um dos mais icónicos filmes sobre Los Angeles, To Live and Die in L.A (1985), tem este local também como cenário.

E se gosta de ver vídeos de música, pesquise Madonna, Bruno Mars, 30 Seconds to Mars, Inxs, Kaney West, Kid Rock, Cherryl Cole, Avril Levigne, Pixie Lott, Paolo Nutini, Maroon 5, Pharrell Williams, Iggy Azalea, Hillary Duff, Red Hot Chilli Peppers, todos eles têm pelo menos um videoclip com o Sixth Street Viaduct. Pessoalmente, destaco e aconselho a visualizar a Walk, dos Foo Fighters.

Dave Grohl numa imagem de Walk, dos Foo Fighters
Dave Grohl numa imagem de Walk, dos Foo Fighters

Também várias séries já usaram o local nas filmagens. Desde logo Melrose Place no primeiro episódio, mas igualmente Lost, L.A. Heat, Fear the Walking Dead ou 24. E mais do que imagens, são as fotos dali tiradas dos edifícios de Downtown L.A. Variam nas cores, na temperatura, na luz, nos reflexos, na hora do dia ou da noite. Comum a todas é o enquadramento que tornou a imagem no verdadeiro postal de Los Angeles.

Menos de dois dias após o encerramento, iniciou-se um longo e progressivo processo de demolição. Páginas na internet como o www.laist.com ou o www.la.curbed.com têm seguido quase diariamente as obras de demolição e testemunham casos de pessoas que se esforçaram para recolher e guardar pedaços de betão do antigo viaduto. Um testemunho da importância que o local tem para os habitantes de Los Angeles e consequente cultura popular.

Essa importância é plenamente reconhecida pelas autoridades que não almejaram esforços na substituição do viaduto. O novo tem um exorbitante orçamento de cerca de 450 milhões de dólares e implica toda a zona envolvente. A área industrial por baixo dará lugar a um amplo jardim que se irá unir à longa requalificação do L.A. River. Uma secção do viaduto actual com os arcos metálicos será preservada neste jardim. O novo viaduto é um projecto de Michael Maltzan arquitecto de Los Angeles que venceu o concurso internacional (conheça o projecto em www.sixthstreetviaduct.org). O novo viaduto irá receber o nome The Ribbon of Light e promete ser uma nova verdadeira atração turística da cidade.

Imagem do novo viaduto
Imagem do novo viaduto, um procjeto de Michael Maltzan

Mais importante, promete renovar as premissas que elevaram o viaduto a ícone e as vistas sobre Los Angeles que lhe valeu a entrada no imaginário diário dos angelenos.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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