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A aldeia feliz

A aldeia deserta parecia ser feliz. Sozinha, mas feliz. As casas e lojas da rua principal pareciam ter sido de cores extravagantes no seu tempo. Azulão, amarelo-canário, cor-de-rosa choque. Como barraquinhas de praia ou uma aldeia de crianças perpetuada no Verão. A terra no chão e as casas de madeira colorida, agora a lascar – sol, chuva, tempo – estavam iluminadas pelo sol como em todas as memórias de lugares felizes.

Ela estava a andar há dias quando chegou. Deixou-se ficar à entrada da aldeia, a observar. Não sabia se achava o lugar aterrador ou paradisíaco. Bolas de feno a correr com o vento como num western. Não havia nenhuma placa com nome, só um poste branco de madeira, partido, onde talvez uma placa tivesse existido, marcava a aparente fronteira da aldeia com o resto do mundo.

Deu um passo em frente. Tinha de atravessar aquele lugar para chegar ao seu destino. Deu outro passo. De vestido de algodão azul e mochila militar às costas, não parecia enquadrar-se em lado nenhum. Só ouvia os próprios passos a pisar na terra, na areia, nas pequenas pedras e folhas que estalavam e gritavam debaixo das solas dos seus ténis. Passou as primeiras casas, ou lojas, ou barracas. Não as distinguia. Não se esforçava por distinguir.

“Psst” ouviu chamar. Virou-se. Uma mulher, atrás de si, à porta de uma das casas. Sorria-lhe e acenava. Tinha o cabelo grisalho apanhado no topo da cabeça, como uma bailarina, e usava um vestido que parecia demasiado pesado. “Não lhe apetece um geladinho, com este sol?”

Não pensou, aceitou. Não quis saber se aquela mulher era uma desconhecida num lugar desconhecido. Outros viajantes que se preocupassem. Ela era uma rapariga do mundo, e principalmente era uma rapariga de gelados. Deu uma corrida até alcançar a porta por onde a mulher tinha desaparecido. Entrou. Ouviu uma campainha a tocar quando entrou e sentiu imediatamente o fresquinho da loja de gelados. Atrás do balcão, a senhora mostrava-lhe os vinte sabores que tinha.

“Caramelo e limão” pediu. Pagou. Saiu. Sem agradecer, sem pensar, sem olhar para trás. Atraída pelo seu cone com dois sabores.

Continuou o caminho. Comia o gelado com vontade, um pouco a medo que derretesse ao sol. Foi surpreendida por várias crianças que corriam atrás umas das outras, à volta dela, para trás e para a frente. Olhou para elas sem as ver, só a tentar desviar-se do caminho. A aldeia deserta tinha mais vida do que ela poderia imaginar. O gelado caiu. Procurou as crianças com o olhar cheio de raiva, mas já não as viu. Tinham-se metido numa casa qualquer. No chão, o gelado parecia uma cabeça com um chapéu, como uma criança perdida numa festa de anos.

“Deixe lá, entre aqui que eu tenho uma limonada de chorar por mais” um senhor de avental e barriga gigante chamou-a. Tinha um bigode bem-disposto, um sorriso afável. As mãos eram enormes e gordas, com dedos de salsichas e braços peludos. Seguiu o homem para dentro da loja. Escolheu um sumo de morango com um pouco de limonada à mistura. O homem espantou-se com aquela ideia. Desta vez, ela agradeceu.

A meio daquela rua, que parecia conter toda a aldeia, parou e observou. Havia vida. A aldeia era felicidade. Viu uns senhores a jogar às cartas num alpendre, ouviu os gemidos de apaixonados numa janela aberta, cheirou-lhe a cozido e a churrasco e a cloro de uma piscina. Bebericou a sua bebida fresquinha com os braços arrepiados de algo que nunca tinha sentido. Uma cadeira de baloiço abanava com uma senhora idosa a dormitar, o som da cadeira parecia o crepitar das chamas de uma lareira. Os gritinhos de crianças satisfeitas chegavam-lhe de um qualquer jardim nas traseiras daquela rua. Lugares que ela nunca tinha imaginado, que não existiam na ignorância dela.

Atravessou o resto da aldeia. Chegou ao fim. Não havia placa, mas havia, de novo, outro pau partido num qualquer vandalismo. Não conheceu o nome daquela aldeia, nunca o conheceria, nunca ouviria falar daquele lugar e nunca o esqueceria. Deu mais uns passos e deixou para trás o pau partido. Cruzou a fronteira. Soube que estava no “resto do mundo”. De repente, cheirou-lhe a terra molhada, como se estivesse a chover. Petricor. Tinha lido algures que era esse o nome do cheiro da chuva em lugares secos – Petricor. Estragava um pouco a magia daquele aroma. Olhou para o céu limpo e azul. Virou-se para a aldeia. Mantinha-se invadida por um sol fervoroso. Sentiu as primeiras gotas a caírem-lhe no nariz e no cabelo. Depois, mais fortes. O céu negro, gritando, agitando-se. As pestanas estavam cobertas de gotículas, como se fosse orvalho. E ela continuava a olhar para a aldeia e para o sol imenso que a invadia. Deserta. Ninguém estava lá. Não havia nenhuma criança, nenhuma velhota, nenhum som de risos como há momentos atrás. Só bolas de feno povoavam aquele lugar deserto. Ouvia o vento a arrastá-las e pareceu-lhe fantasmagórico. Bebeu o resto do sumo e olhou para o copo de plástico. Lembrou-se do gelado caído no chão. Perguntou-se como teria pedido aquelas coisas, se toda a sua vida tinha sido muda.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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