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O tempo da Europa

Nos últimos tempos por essa Europa, têm-se dividido as opiniões quanto à sua eventual decadência, ou à sua outrora incontestada capacidade de liderança mundial, se não económica, provavelmente intelectual, científica e civilizacional. Obviamente, os que, directa ou indirectamente, têm feito parte das instituições europeias são sempre defensores da imagem da Europa como timoneira mundial.

A Europa foi a maior vítima de um grande movimento que interessava muito aos Estados Unidos da América: a globalização. Nos últimos anos, desde a era de “ouro” da Globalização, este grande espaço geográfico, apareceu como a grande região, onde os países se juntaram para resolver problemas emergentes, bem mais do que para desenvolverem um autêntico projecto de desenvolvimento. Mesmo nos dias em que a Crise parecia ainda não ter batido à nossa porta, os projectos europeus ou eram algo de incipiente, acanhados, pouco passando da ideia original, ou se transformavam em mais um manancial de burocracias, sempre com gastos orçamentais astronómicos. Noutros dias, porventura melhores, alguns países beneficiavam de um novo projecto, enquanto outros, ou mesmo para que outros ficassem em pior situação, ficaram cada vez mais impedidos do desenvolvimento.

Por essa altura, antes de 2008, parecia que os desgraçados países do Sul eram as ovelhas negras, sempre as mesmas tresmalhadas, num rebanho que seguia o trajecto rumo ao sucesso, ao desenvolvimento. Porém, à luz do que hoje se sabe, esse desenvolvimento de alguns, em prejuízo de outros, de muitos mais, poderá ter-se tornado uma triste ilusão.

A globalização, como muitos alertaram, verificou-se mais prejudicial do que uma oportunidade de desenvolvimento. Claro que algumas empresas beneficiaram e, com elas, algumas personalidades, da política e dos negócios… mas…

A Europa foi um sonho de espaço geográfico, social e humano, mas também económico, político e cultural, para referir apenas algumas das dimensões de uma civilização, onde o humanismo parecia outro, superior, uma referência à escala mundial. A Europa era o centro do desenvolvimento, o lugar onde tudo acontecia. Para compararmos a rapidez de desenvolvimento de uma nação, de um povo, ou de uma civilização temos de o fazer na referência temporal adequada. Quer isto dizer que não podemos comparar a velocidade como as coisas aconteciam na cultura, na ciência, no desenvolvimento humano há quinhentos anos com a dos tempos actuais. Contudo, podemo-lo fazer entre diferentes regiões do planeta, numa dada época. E tudo acontecia na Europa há quinhentos anos e muito pouco, de novo, se podia constatar noutras regiões do globo, por esse tempo. Esse ritmo de acontecimentos, desde as primeiras ideias humanistas de filósofos ligados à religião cristã (e não a outra qualquer, note-se), ou mais tarde, dos primeiros filósofos do iluminismo, que conduziram a todo o movimento que foi pondo em causa as monarquias, mais ou menos absolutas, ou mais ou menos decadentes, esse ritmo, foi na Europa que se impôs. Pela força das ideias, primeiro. Depois, pela força das sociedades e culturas com vertentes mais desenvolvimentistas e mais vocacionadas para o comércio, como foi Portugal desse tempo, o primeiro país da globalização. O tema do desenvolvimento europeu, da evolução dos países, das pessoas e do cérebro humano, é sempre muito fascinante, algo controverso, mas dificilmente se pode atribuir a outra qualquer zona do mundo, que não a Europa, esse grande ímpeto pelo avanço da humanidade, do que à Europa. Pela Europa, com o desenvolvimento humano, chegaram os Direitos Humanos, chegaram os dias em que se foi pondo em causa um sistema político e económico, de pouca justiça social e humana. Na Europa, criaram-se as primeiras democracias modernas e é na Europa que se concentram mais democracias.

O sonho europeu, de um grande espaço de intercâmbio, de recursos financeiros, de pessoas, conhecimento de uma prosperidade humana e económica a toda a prova, um local invejável para o qual o resto do mundo podia olhar e desejar, ou invejar, tem-se transformado. A velocidade da degradação tem sido até superior à velocidade da construção de uma coesão nunca conseguida, nunca verdadeiramente desejada. Sejamos realistas: a coesão entre países, a busca do desenvolvimento mais equilibrado e das condições de vida mais igualitárias entre os países europeus, no âmago do grande sonho europeu, foi um miragem dos países do Sul, que tentaram ver na Europa a sua porta para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida, mas nunca foi uma ilusão sequer dos povos do centro e norte da Europa, que sempre se têm sentido superiores e mais capazes. A verdade, porém, não é nada simples, ou linear de se entender. E, para a ver, temos de nos libertar de complexos, ou amarras ideológicas. Caso contrário, é como olhar ao espelho da “bruxa má” do conto da Branca de Neve.

O norte nunca pretendeu ter um sul, no mesmo espaço europeu, no mesmo grau de desenvolvimento e, por isso, ao seu nível de riqueza. Nunca o permitiu, nem o quer. Precisou de colocar empresas suas em países onde a fragilidade e dependência do poder político terá sempre a tentação de lhes abrir as portas com condições que não encontram nem nos seus países, nem nas suas pares desses países, seja pelos vulgares benefícios fiscais, seja por pacotes de apoio (fundos financeiros) negociados a alto nível europeu, a que mais nenhuma empresa terá acesso. Ou por uma fórmula mais inteligente e rentável: alimentando ciclos de crise dos quais os países dependentes e sempre à beira de default nunca escapam totalmente, pois esse é o maior negócio e maior exportação de uma Alemanha, ou de outros países do Norte.

Seja qual for a interpretação ou visão que tenhamos disto, a verdade é como o azeite… e as crises sucedem-se, os medíocres na política eternizam-se, as empresas dos países dependentes continuam elas também dependentes, ou capturadas por poderes económicos bem mais poderosos e só a ilusão das gentes dos países mais pobres é que mantém a visão de uma Europa como lugar de desenvolvimento e bem-estar, diferenciado do resto do mundo. Não que não se diferencie, mas que as assimetrias, as profundas desigualdades e a impossibilidade de qualquer ingénua pretensão ao desenvolvimento no Sul, se torne algum dia realidade.

Passa-se a ideia de que no Sul não se trabalha, ou não se trabalha bem, ou se é menos capaz ou capacitado. Passa-se a ideia até, subtilmente, de uma certa inferioridade racial, por oposição a uma evidente superioridade dos países do bem-estar económico e social.

E, com isto, a Europa como espaço de civilização mais desenvolvida, fica apenas em projecto, nunca se torna real. E com isto, a Europa vai perdendo tempo e possibilidades, porque o mundo não é apenas a Europa e por cá cada vez menos se cria, menos se inventa e menos se intervém do desenvolvimento do mundo todo. O que equivale a uma decadência da civilização, por manifesta incapacidade. Por essa incapacidade ter como origem um país que se julga timoneiro na Europa e no Mundo e se vem confirmando como o exemplo da estagnação, face a um mundo que acelera o seu desenvolvimento.

A Alemanha, o plano de Merkel começa a imitar em vez de ser imitada. A Ásia tem vindo e pode continuar a tomar a dianteira. Tudo seria pacífico, não fossem as crises provocadas fora dela, por uma Alemanha de agiotas incompetentes e sem visão, ou sem interesse algum numa qualquer visão de futuro com desenvolvimento, porque a gestão dos recursos no imediato lhes é suficiente. Há quem tenha visto na chanceler alemã a personificação da razão, do racionalismo económico e da clarividência. Eu continuo a ver o provincianismo cego, o paradigma do povo alemão, que julga ser sustentável uma Europa com desigualdades gritantes e injustas, criadas por eles mesmos, ao impedirem o acesso a condições de vida e de investimento igualitárias ou mais equilibradas, entre norte e sul da Europa. Essa ilusão é desmentida, quando sabemos que num supermercado alemão, onde quem compra tem quatro vezes mais poder de aquisição do que um espanhol ou um português, compra bem mais barato e para lá se dirigir pagou menos pelo combustível, menos uns dez mil euros por um automóvel idêntico, comunicou por telemóvel mais barato a tarifas mais baixas, tomou duche pagando menos pela água e pelo gás, tem custos de saúde inferiores…

Terá o sonho europeu esmorecido, falecido, ou apenas sido adulterado, por mediocridades liderantes e ainda em vigência? Terá o sonho europeu salvação? Como regressar a um sonho que foi o maior à escala mundial, o maior a que o mundo assistiu? E será viável a um país pequeno, como Portugal, contribuir de forma decisiva e indelével para recuperar o que agora nos parece em vias de, irremediavelmente, se perder?

O que levou ao sonho, foi a crença. Num espaço que tinha mais em comum do que em dissonância, que o que tinha e tem em comum entre povos distintos, com costumes distintos, em diferentes regiões, do que o que nos separava. E ainda essa fé política, numa vantagem com a União. O que foi motor dessa ideia europeia foi o desejo impulsionador da evolução social, cultural, económica e a vontade de se manter ao leme do mundo. Outrora, havia pela Europa um conjunto de políticos que tinham esta crença e esta vontade enérgica, mas também uma sabedoria que os distinguiu como estadistas. Não me parece difícil que muitos concordem comigo, em que já não temos gente dessa fibra, nas instituições partidárias e políticas, europeias.

Portugal pode, se muito mudar, ser um contribuinte, como um qualquer outro país, dessa mudança, única escapatória de salvamento de uma região, onde a crise de liderança é evidente, o desnorte é notório e a eficácia das decisões é limitada, ou mesmo contraditória com os resultados. A austeridade é disto exemplo, por ter afundado por uns longos e dolorosos anos, países que assomavam a porta do desenvolvimento, logo antes de o saborearem. Contudo, na política externa europeia, também se evidencia esta latente mediocridade, esta incompetência incompreensível, que grassa pela Europa e não poupa Portugal.

A Europa não estava preparada para a Globalização. Como não o estava para a transposição da produção industrial e do crescimento económico para Oriente. Nesse Oriente, passou a produzir-se o que na Europa se verificou inviável, por força da velocidade e da necessidade de forte competitividade, que a Globalização acarretou.

No entanto, Portugal tem sempre uma postura que é um trunfo. Uma postura, uma história, uma herança de lidar com os povos de qualquer região do Mundo, que é ímpar e pode tornar-se decisiva. E tem de saber fazer uso de tal capacidade nas instâncias europeias. Muito mais do que estender a mão, o que tem sido demasiadas vezes fundamental para Portugal, o nosso país tem de usar da sua inteligência histórica, hoje não vislumbrável em algum dos actores políticos portugueses, é certo, para contribuir, ou mesmo evidenciar aos olhos dos demais, para um outro rumo para o desenvolvimento, que terá de passar por um novo ciclo de intervenção económica e de imposição de uma hegemonia perdida. Para tal é muito necessário reinventar, muito ou quase tudo. Desde já, a nível científico, tecnológico, industrial e económico. Novas formas de gerir, de lidar com a laboração produtiva, de controlar em limites aceitáveis um sector financeiro que se tem revelado demasiado predador e do seu imenso poder tem usado, com manipulação dos agentes políticos.

São urgentes novas ideias, novas formas de gerir politicamente, a recuperação dessa civilização que moldou o Mundo e Portugal, onde se gerou a primeira Aldeia Global e outrora contribuiu nessa construção, tem responsabilidades nesta mudança. A Europa enfrenta diversos problemas, que serão desafios quando outra gente política estiver em cena. O maior, provavelmente, a Desigualdade salarial, social, de modo de vida. Com ele, o maior obstáculo ao desenvolvimento e os esforços alargados dos mais ricos para socorrer ao sufoco dos mais pobres. Tem agora o dilema humano das migrações de África, já previsto por um demografo alemão há alguns anos, a que esta Europa não deu o devido valor. Com isso, o problema cultural. E com dilemas culturais e sociais, a decadência entra pela porta de frente, o que Jacques Barzun já tinha escrito em Da alvorada à decadência.

Ainda parece possível salvar uma grande Europa e o seu projecto, na qual o Mundo põe os olhos como referência, mas cada vez o será mais difícil. Talvez com outra gente, como é evidente. E urge…

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

2 Comments

  1. Está muito clara e bem vista, esta posição sobre o que se passa no mundo de hoje, e especialmente desta Europa, cada vez mais atrofiada,governada por gente “burra” e incapaz de ver para alem do seu umbigo ; alguns ainda pensam que o “muro de Berlim”ainda não caiu !!! e que o Staline ainda está vivo…para tentarem a sua imitação, sem verem que até já têm um Papa da America Latina,muito diferente de alguns romanos,e de tão distraídos que andam a olhar para o seu umbig,não prestam a atenção devida ao desenvolvimento e bem estar dos seus povos .
    O mundo mudou muito desde 2008 …Se estes “dorminhocos”não acordam; esta civilização como a conhecemos, acabará muito depressa !!!

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