Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
ContosCultura

Sem sentido

Um Verão gigante queimava-lhe a pele. O suor escorria-lhe pela testa e molhava-lhe as costas, os sovacos, as virilhas. De vez em quando, passava a mão pela testa para limpar. A estrada à sua frente era enorme e estava deserta. Ela não conseguia ver o final da estrada e, se olhasse para trás, aperceber-se-ia que também não conseguiria identificar onde tinha começado. Se pensasse bem, nem saberia ao certo como tinha chegado até ali, só se lembraria de não parar de andar, andar, andar. Talvez estivesse a andar há anos. Quem sabe?

Mas ela não pensava em nada disto. Quando se apercebeu que pensar profundamente, debruçar-se complexamente sobre qualquer tema remoto da sua vida não a levaria a nada mais que ao desespero, tinha decidido deixar-se ir sem pensar. Rapidamente entendeu que não sabia o que queria dizer “deixar-se ir”, por isso tinha pegado numa mochila com roupa e tinha começado a andar, sem rumo, sem parar. Já tinha passado tanto tempo que nem sabia que dia era, há quanto tempo andava, de onde vinha nem para onde ia. Era como se não soubesse quem era. As memórias de um trabalho infeliz num cidade avassaladora e sem família pareciam ter desaparecido.

No entanto, houve algo naquela estrada que a fez parar. Abaixou-se e tocou no cinzento seco poeirento que queimava. Olhou para os lados. A estrada atravessava um deserto. Não, deserto não; era terra, terra castanha e húmida que contrastava com a secura do alcatrão que a quebrava. Pingadas ao longo do caminho, aqui e ali, havia algumas árvores. O sol queimava-lhe a cabeça e a mochila parecia pesar-lhe. Quando olhava para longe, conseguia até ver o calor. Talvez aquilo lhe fosse familiar?

Continuou a andar até estar debaixo de uma árvore. Largou a mochila em cima da terra húmida e sentou-se em cima. Encostou a cabeça ao tronco duro e fresco e fechou os olhos. Os pensamentos agora pareciam querer atacá-la, queriam soltar-se, ela sentia-os a debaterem-se na jaula onde os tinha obrigado a ficar durante todo aquele tempo.

“Ei” uma voz chamou-a de novo para aquele lugar.

Olhou para a sua direita. Ali mesmo, por onde ela tinha acabado de passar, havia uma paragem de um autocarro qualquer. Tinha aparecido como uma miragem. Não dizia número nem destino, era apenas um poste com a tinta branca a descascar, e uma placa branca com um marco de tinta preta. Simples. Ao lado, encostada ao poste, estava uma rapariga jovem, mesmo debaixo do sol como se não o sentisse, de pele vermelha e dourada. Ela sentiu-se desconfortável mas curiosa. Olhou para a rapariga, com a mão por cima dos olhos a tapar a vista do sol. Receou que a rapariga interpretasse aquele olhar como um convite à conversa, mas não; a rapariga sorriu para ela, como se lhe desse as boas-vindas com uns olhos gigantes e animados, mas rapidamente a ignorou de novo, continuando a olhar para longe numa tentativa de ver chegar o autocarro. Ela deixou de olhar para a rapariga, um pouco confusa, e olhou para a mesma direcção, na espera de um autocarro que nem sabia se existia, de onde vinha e para onde ia. Um pouco como ela própria. De vez em quando encostava a cabeça à árvore de novo, tentando assimilar o fresco do tronco e da sombra, quase como se quisesse fazer parte daquele pedaço de natureza. A rapariga observava continuamente o horizonte. Não se mexia.

Não passava nenhum carro.

O sol começou a pôr-se, mas o calor tinha escolhido permanecer ali, no alcatrão, no ar, na copa das árvores. Não havia vento. Mas no meio das ondas de calor do alcatrão, começou-se a ver um ponto branco. A rapariga mexeu-se. Olhou para ela, sorrindo de novo, como se estivesse satisfeita por terem atingido aquele objectivo em comum, e preparou-se para a chegada daquele misterioso autocarro. Ela levantou-se, sacudiu a mochila e pô-la de novo às costas. Aproximou-se da paragem e da rapariga que, de perto, parecia uma menina demasiado pequena para estar ali sozinha. O autocarro aproximou-se, um enorme quadrado de metal pintado de branco e preto, e, como a placa, sem número nem destino. Parou mesmo em frente a elas. A rapariga – a menina – subiu os três degraus e desapareceu na escuridão do autocarro. Sem saber porquê, ela também subiu. Não perguntou para onde. O autocarro estava vazio, mas ela não conseguia localizar a cabeça da rapariga que tinha entrado antes. Não pensou demasiado nisso. Sentou-se no primeiro lugar à janela e viu as árvores a passarem velozmente por ela, até adormecer num sono profundo.

Tags

Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: