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ContosCultura

Insónias

Tomo um comprimido com esperança que a ansiedade passe e que consiga dormir. É fraquinho, penso, e vai ajudar sem se tornar num problema. Sinto-me apertada por dentro e com dificuldades em respirar. A cabeça tirou a noite para desarrumar as velhas gavetas de angústias e situações mal-resolvidas e decidiu que as ia encaixar com as melhores paranóias que conseguisse imaginar.

Oiço, no escuro, uma melga à procura de sangue. Não aguento o zumbido que parece vir de uma voz nasalada e irritante, por algum motivo lembra-me todas as amizades que perdi e aquelas que quero perder mas não sei como. Tento apanhá-la com uma palmada. Que divino, morrer com palmas. Maldita melga. Não a oiço, talvez a tenha apanhado.

Levanto-me. Não consigo relaxar. Talvez ajude se fumar um cigarro.

Sentada à janela, a olhar para os prédios, os carros e as pedras da calçada iluminados pelos candeeiros de rua, é-me quase indiferente a solidão que suspiram. A perna mexe rapidamente, em consonância com a mente. Maldito comprimido. Mais uma passa. O fumo sai como se fosse um demónio. Desejo que, com o fumo, saia tudo de cima de mim. De dentro de mim. Que o fumo me traga a paz, como se estivesse a fumar cachimbo com um índio. Está frio, os braços mostram-me a pele-de-galinha e sinto falta do calor do dia. É um verão de noites tristes e frias, este.

Penso nos copos de cerveja que bebi com os amigos (aqueles que não quero perder, atenção!) umas horas antes. De batom vermelho nos lábios e risco preto nos olhos, numa exuberância e felicidade que às vezes parece escapar-me entre os dedos. Penso no quanto o sol a arder na pele era sentido quando eu fechava os olhos, em como aproveitávamos as gargalhadas que nos assaltavam, em como tremia ansiosamente ao contar-lhes todas as insignificâncias que na insónia pareciam gigantes, em como todos os sons pareciam fazer sentido e eu me sentia, inexplicavelmente, viva.

Apago o cigarro no cinzeiro e volto para a cama. Tomo outro comprimido; é fraquinho, e talvez ajude o seu comprimido-irmão a chamar o sono. A obrigá-lo a descer-me sobre os olhos, sobro o corpo. Principalmente sobre a mente. Não quero sonhar. Talvez esteja a ficar louca. Talvez esteja a definhar e algum dia me encontrem na rua sem saber o meu nome, dentro de uma fonte como se estivesse nas Caraíbas.

Em certas insónias as mentiras dançam como verdades à minha frente, à espera que as agarre e me deixe levar nessa dança sedutora de torturas. Já não posso permitir esse frenesim interior. Se olhar muito para essas verdades, deixo de sentir o corpo, de sentir peso e força e existência e luz e tudo. Depois disso, só uma dor na perna (uma melga? Não a tinha matado?) me recorda que estou viva e que há coisas para fazer, sítios para estar, mundo para ver.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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