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Rugby: Que Futuro?

A história do Rugby em Portugal começa no início do século XX, um desporto que inicialmente era praticado por ingleses. Em 1957, é criada em Lisboa a Federação Nacional de Rugby, que, desde então, tem regulado a modalidade a nível nacional.

Todos nós temos presente os feitos dos Lobos, que se apresentaram como os “underdogs” do 6 Nações B, em 2007. A equipa que mostrou que o querer, a garra e a perseverança são a chave para o sucesso. Uma selecção que ao mundo ensinou que não existem impossíveis. Com a sua conquista, surgiram escolas de Rugby um pouco por todo o país e nasceu a vontade de praticar a modalidade democrática, já que neste desporto todos podem participar e o contributo de cada um é fundamental para o colectivo.

No entanto, apesar de estar presente em Portugal há largos anos, parece ainda muito distante dos portugueses. Procurámos saber um pouco sobre a modalidade no país e falámos com um antigo praticante da modalidade – o comentador e jornalista da modalidade, Bernardo Rosmaninho.

Como está o Rugby em Portugal, neste momento?

O Rugby português, depois de um período em que obteve resultados históricos e esteve no centro de muita atenção mediática, está agora num momento mais difícil.

Entre 2003/04 e 2007, os Lobos venceram o 6 Nações B, o Campeonato Europeu de Sevens, por várias vezes, e participaram no Mundial de Rugby de França. Após 2007 e até 2010, em Portugal, o número de praticantes e espectadores nos jogos, em especial nos da Selecção Nacional, aumentou consideravelmente, continuando a ganhar Campeonatos da Europa de Sevens, mas falhando a ida ao Mundial de 2011, que se disputou na Nova Zelândia.

Só após 2011 é que podemos falar num ciclo em que, sem sucessos a nível internacional e condicionado por uma conjuntura financeira muito adversa, o Rugby português volta a ficar limitado, pela falta de infraestruturas, de exposição continuada nos media e de atletas nos principais campeonatos europeus. Apesar de reversível, este cenário é algo preocupante, se tivermos em conta o marco que é o regresso do Rugby aos Jogos Olímpicos em 2016 e o salto competitivo que os nossos adversários têm dado, no campo e fora dele, munidos de mais recursos, tanto a nível financeiro, como a nível humano.

Os Lobos fizeram história em 2007, mesmo assim são poucos os praticantes e espectadores da modalidade. O que falta ao Rugby português para “dar o salto”?

Falta, acima de tudo, assegurar que o Rugby tem uma presença nos media constante, sobretudo, em canais abertos, sejam estes a televisão, a Internet, ou a imprensa escrita. De 2007 para cá, as pessoas passaram a saber que os Lobos são a nossa Selecção, que o desporto se pratica em Portugal e, regra geral, quais os clubes que chegam às finais das competições nos seniores.

É fundamental que se trabalhe no sentido de existirem mais formas de fazer chegar a modalidade ao grande público, de reactivar programas de Rugby nas escolas, onde estão os futuros praticantes e adeptos, e de assegurar, independentemente dos resultados desportivos, uma comunicação constante com notícias positivas e centradas não (só) num jogador, mas nas virtudes do Rugby e no trabalho dos clubes, das associações regionais e da federação.

Perdeu-se uma oportunidade (com o ciclo de vitórias entre 2004 e 2007) para o Rugby nacional centrar recursos e apoios das empresas e estado na expansão, renovação, ou, em muitos casos, na construção de campos de Rugby, mas, lentamente, esse esforço vai agora sendo feito.

Não podemos crescer, enquanto modalidade, quando, por exemplo, no Porto, em Évora, em Santarém, no Algarve e até mesmo em Lisboa. É gritante a falta de campos para o número actual de praticantes e entidades com décadas de actividade são, nalguns casos, preteridas em detrimento de clubes, cuja única modalidade é o Futebol, que, infelizmente, em Portugal, canibaliza os recursos e apoios disponíveis para o desporto.

De que forma sobrevive a modalidade no nosso país?

O Rugby português sobrevive, financeiramente falando, graças ao apoio e dedicação de muitos dirigentes, pais e atletas, que não só pagam para praticarem a sua modalidade preferida, mas também contribuem, no caso das empresas, com patrocínios, que, com mais visibilidade, os clubes e a federação podem justificar mais facilmente.

Actualmente, o Rugby não escapa às dificuldades do país, mas creio que a comunidade também precisa de reformular as suas competições, torna-las mais competitivas e, em alguns casos, proteger as equipas, tornando-as exclusivamente regionais. Muitos dos clubes de fora de Lisboa têm nas deslocações a maioria das despesas para cada época.

Essas alterações, quando fixas, durante um período mínimo de tempo, juntamente com um aumento da visibilidade deste desporto nos media, não só ajudariam o orçamento de muitos clubes, como tornariam estes e o Rugby português em geral mais apelativos para parcerias com empresas e mais propenso a captar apoios do estado.

No que toca à questão da sustentabilidade, à angariação de fundos/patrocínios e a forma como as equipas longe dos grandes polos de Lisboa, Porto e Coimbra podem competir. De que forma é que isso condiciona o crescimento do Rugby nacional?

Esta modalidade só poderá crescer e ter parceiros que a sustentem com mais facilidade nessas regiões, quando as competições tenham mais em consideração as deslocações que as equipas têm que fazer e quando, ano após ano, o calendário e o modelo das provas não mudem radicalmente, inviabilizando apoios que, por exemplo, ao nível das camaras municipais, também são disputados por clubes de outras modalidades.

Obviamente que é mais difícil para uma equipa de fora da Grande Lisboa ter sucesso a nível nacional, mas, se lhe disser que a Associação Académica de Coimbra é a actual campeã nacional de Sub-18 e que nos Sub-23 o CDUP (Centro Desportivo Universitário do Porto), no ano passado, venceu o Campeonato, a Taça de Portugal e a Supertaça, dou facilmente dois exemplos de como tal é possível.

O investimento nas academias regionais e nas infraestruturas dos clubes seriam dois meios de alcançar, a médio prazo, algum equilíbrio competitivo e de dar ao Rugby nacional ferramentas para crescer fora dos grandes polos urbanos.

Para que as equipas de regiões periféricas sejam mais fortes, não basta compensar os critérios pelos quais são distribuídos os apoios (materiais e técnicos) aos clubes. Importa também incentivar estes emblemas a assegurarem anualmente um número constante de atletas em todos os escalões e não esporadicamente uma equipa competitiva num.

Que futuro pode ter o Rugby em Portugal?

Para além daquilo que foi dito aqui, creio que o futuro do Rugby em Portugal depende muito dos próximos resultados das nossas Selecções Nacionais, em especial as seniores.

É positivo que Portugal tenha organizado, nos últimos anos, vários Campeonatos da Europa nos escalões mais novos e o Torneio de Qualificação Europeu para o Mundial de Sevens. O Mundial Júnior que este ano a Federação Portuguesa de Rugby organiza é um marco para o desporto no nosso país.

Contudo, sem a devida divulgação destas provas e sem que os melhores membros das novas gerações de Lobos pratiquem a modalidade em campeonatos mais competitivos, como são, por exemplo, as duas principais divisões de Inglaterra, ou França, como os melhores jogadores da Geórgia, da Roménia e da Rússia fazem, carecemos de meios para equilibrar o confronto com estas selecções. Sem novos triunfos a nível internacional, sem que se faça um esforço no sentido de aplicar medidas que permitam o crescimento do Rugby no nosso país e o aumento da visibilidade da modalidade, será muito difícil evitar uma regressão desta em Portugal.

Acredito que o futuro do Rugby em Portugal pode ser positivo, que este ainda tem muito para crescer e que a nossa selecção, em 2019, estará de volta ao Campeonato do Mundo de Rugby.

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Marguerita Harris de Pina

Nasci no final da década de 80 e o meu nome é composto por 10 letras. Sou apaixonada por bicicletas, música e desporto. Gosto de livros e de conversar

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